POOF!
Era isso. Morri e instantaneamente estava no inferno. Era uma forma um tanto brutal de receber a informação mas, afinal, eu estava no inferno, não é mesmo?
Me deparei com uma enorme sala repleta de guichês, cada um com sua quilométrica fila. Ao meu lado, um aparelho de senhas. Retirei um papelzinho só para saber que ele não tinha número algum – eis que ouço pelo alto-falante: “Recém-chegado Fernando Barone, favor dirigir-se ao guichê sete”.
Levei pelo menos quinze minutos para chegar ao começo da fila do guichê sete. Durante o interminável tempo que esperei pela minha vez, comecei a me indagar sobre algumas coisas. Como tinha morrido? Como apareci aqui? Por quê diabos preciso ir até um guichê? Aonde está o fogo eterno, os gritos e rangidos? Pelo menos o calor estava lá – uns 47º e subindo.
Quando cheguei na frente do guichê, a atendente olhou bem na minha cara e disse: – Fernando Barone? – Sim. – Humm… (voz de desprezo) Parece que você está no guichê errado, como todos os idiotas que chegam aqui. Preencha esses formulários e vá para o guichê 15. O guichê 15 tinha uma fila ao menos cinco vezes maior que a anterior; era desanimador andar até o fim dela para pegar meu lugar na longa espera. Já não tinha mais noção do tempo que passava, pois não tinha sono e não sentia fome ou as necessidades básicas humanas – apenas uma irritação que aumentava gradualmente conforme me dava conta dela.
Enquanto aguardava tenebrosamente, avistei alguns conhecidos chegando, que simplesmente se materializavam no meio do salão.
- Barone! Eae?
- Eae, galera! Como vocês chegaram aqui?
- Acidente de carro, e você?
- Eu? É… hum… não lembro, cara!
- Putz, sua cabeça deve ter explodido….
Fazia sentido.
Vi um senhor de terno bem chique alguns lugares à minha frente na fila ser tentado por um demônio anão que parecia saído de um desenho animado. Ele prometia que, atrás de uma porta que acabara de aparecer, o senhor ia encontrar um mega cassino, com tudo à vontade para ele; lá, iria ganhar sempre nas apostas e teria um mar de mulheres loucas pelo tiozão aguardando. Como o falatório não estava funcionando, o mini-demo abre a porta e mostra o que tem lá – imediatamente uma dúzia de pessoas da fila começa a se estapear para passar logo pela entrada daquele oásis no inferno.
Assim que o primeiro passou, a porta fechou violentamente e os sons que eu estava sentindo tanta falta começaram: gritos de agonia, chicotes, correntes, fogo… o diabinho estava deliciado; foi um belo aviso para não sair da fila.
Depois de vaguear um pouco em pensamentos aleatórios, me peguei olhando para o relógio, só que não tinha nenhum. Resolvi abordar a pessoa à minha frente na fila:
- Com licença, há quanto tempo o senhor está aqui?
- Pelas minhas contas, uns oito meses. Mas o tempo passa de um jeito diferente aqui…
- OITO MESES?
- É… pelo que ouvi falar ali pra frente, os primeiros quarenta anos são passados assim… daí pra frente é só ladeira abaixo…
- Puta merda, mas que inferno!
- Pois é…
Acordei.



Muito bom. Adoro ler e me sentir presa a historia, isso é muito especial. Tem que ter muito talento. Parabens!
obs: gostei também do modo como você cria a possibilidade de outras historias dentro da mesma, como na parte do “oasis” em meio ao inferno, mil e outros mundos ali dentro.
aii já falei demais… rsrs.